Espiritismo, Verdade e Vida

    “A verdade é comparável às gotas de chuva que oscilam suspensas na
    extremidade de um ramo. Enquanto ali ficam pairando, brilham como
    puros diamantes ao esplendor da luz do Sol. Desde, porém, que tocam
    o chão, confundem-se com todas as impurezas. Do mesmo modo, tudo
    o que nos chega do Alto corrompe-se ao contato com a terra. Até
    mesmo ao seio dos templos levou o homem suas concupiscências,
    suas misérias morais. Assim é que em cada religião o erro, este
    apanágio da Terra, mistura-se com a Verdade, esta bênção dos Céus.” [1]

         Entrei em contato com a Doutrina Espírita quando ainda jovem, em situação muito especial que já tive oportunidade de narrar em outra publicação.[2] Desde então, o conhecimento adquirido do estudo e da prática da Doutrina vêm norteando minha existência e, em grande parte, as daquelas pessoas que escolheram comigo compartilhar suas próprias jornadas nesta breve passagem pelo nosso amado Planeta.
         Ao longo destes anos, sempre procurei ver a Doutrina Espírita em seus três aspectos, sem atribuir a qualquer deles a preponderância sobre os outros dois. Essa foi a lição a nós transmitida por Allan Kardec[3], sob a orientação da Falange presidida pelo Espírito de Verdade, lição essa que continua mais atual do que nunca.
         O aspecto científico nos orienta a manter a mente e o coração abertos para questionamentos e opiniões divergentes das nossas, de modo a entendermos, de forma progressiva e de acordo com o nosso estágio evolutivo, os mecanismos a que os fenômenos obedecem. Na medida em que compreendemos esses mecanismos, vamos também desenvolvendo instrumentos para controlá-los, desde que para isso estejamos intelectual e moralmente preparados.
         Já o aspecto filosófico permite-nos o aprofundamento do raciocínio na busca das razões pelas quais os fenômenos ocorrem em determinadas circunstâncias de tempo, lugar, natureza e intensidade. Vemos que o aspecto filosófico avança um degrau na caminhada em busca do entendimento pleno da nossa Doutrina, analisando as causas dos fenômenos, buscando sempre situá-los no contexto histórico do grupo social em que eles ocorrem.
         Por último, o aspecto religioso, que serve certamente como o coroamento de um processo até aqui preponderantemente intelectual, nos induz a questionar sobre as finalidades dos fenômenos, sobre os reais objetivos que têm em mente os seres que orientadores de sua realização em determinados momentos e lugares, com a intensidade e a clareza que os têm caracterizado até aqui. Notemos que esse aspecto avança outro degrau na direção da complexidade do tema, indo além do “como?” e do “por quê?” para ingressar no campo do “para quê?”, uma questão de natureza transcendente e muito mais difícil de ser respondida.
         O que às vezes nos passa despercebido é que o primeiro e o segundo aspectos são as bases para a compreensão e incorporação do terceiro aspecto em nossas vidas. Notemos que, na sequência da edição dos volumes da  codificação Kardequiana, foi publicado primeiramente O Livro dos Espíritos, em abril de 1857, trazendo as bases filosóficas da Doutrina. A seguir, em janeiro de 1861, O Livro dos Médiuns veio nos trazer as bases científicas e detalhar métodos e procedimentos utilizados na obtenção das comunicações e manifestações dos espíritos  desencarnados. Somente em abril de 1864 foi publicado O Evangelho Segundo o Espiritismo, estabelecendo o corpo doutrinário de cunho religioso e consolidando o Espiritismo como sendo de fato a Terceira Revelação no contexto do Cristianismo.
         O Pentateuco Kardequiano seria completado com a publicação, em agosto de 1865, de O Céu e o Inferno, o livro que trata das esperanças e das consolações, e, finalmente, com a publicação, em janeiro de 1868, de A Gênese, o livro que trata das causas primeiras de todas as coisas.
         Obviamente, não se está aqui querendo dizer que os estudos doutrinários devam seguir rigorosamente essa sequência. É interessante também observar que O Livro dos Espíritos, o primeiro da série, é estruturado em quatro partes, cada uma das quais seria abordada em detalhes nos volumes seguintes. Assim é que a primeira parte está detalhada em A Gênese; a segunda parte, em O Livro dos Médiuns; a terceira parte, em O Evangelho Segundo o Espiritismo; e a quarta parte encontra-se aprofundada em O Céu e o Inferno.
         A Codificação Kardequiana é magnífica construção do pensamento coletivo de uma plêiade de espíritos de luz que decidiram se expressar através de uma equipe diversificada de médiuns distribuídos em diversas localidades da Europa. Essa copiosa produção foi na sequência organizada e revisada pelo Codificador Allan Kardec e seus laboriosos companheiros de jornada, num trabalho cujo nível de dificuldade é hoje muito difícil de avaliar. Ao lê-la, hoje, constatamos com surpresa a necessidade de pouquíssimos ajustes para o perfeito entendimento daquilo que foi escrito e publicado há mais de um século e meio, época em que a ciência, como atualmente a conhecemos, dava seus primeiros passos.
         Junto-me neste momento àqueles que, como eu, tiveram o privilégio de entrar em contato com a Doutrina Espírita muito cedo e adotá-la como um referencial de pensamento e conduta ética para prestar nosso preito de gratidão ao professor Allan Kardec, ao Espírito de Verdade e à sua poderosa Falange que, atendendo ao chamado do Mestre Jesus, trouxeram a público a Terceira Revelação.
         As palavras inspiradas aos médiuns e que vieram a materializar-se nas incontáveis edições das obras do Pentateuco Espírita são como as gotas de chuva a que alude Léon Denis, o Apóstolo do Espiritismo, na citação que emoldura estas breves considerações. É preciso zelar para que essas joias luminosas não sejam contaminadas pelas mazelas e pelas quizílias da vida em sociedade, preservando nossa amada Doutrina e evitando que ela seja arrastada em discussões estéreis que nada têm a ver com o espírito do Cristianismo Redivivo. Que ela continue a pairar, cintilante, sobre os horizontes de nossas vidas, trazendo-nos a certeza de que a verdadeira felicidade só se encontra na prática do Bem e da Caridade.
         Ao encerrarmos esta breve revisão de alguns aspectos que caracterizam a nossa Doutrina Espírita, cabe ressaltar ainda uma vez a importância de que os três aspectos a ela inerentes sejam estudados e compreendidos de forma conjunta e abrangente. Só assim estaremos no caminho da fé raciocinada e por isso mesmo inabalável – pois “fé inabalável só o é aquela capaz de encarar a razão face a face, em todas as épocas da Humanidade.”[3]

    O autor é General de Exército na Reserva[*]

    Notas:

    1. Léon Denis, em seu livro “Depois da Morte”
    2. https://sobrecoisaseloisas.blogspot.com/2022/01/como-me-tornei-espirita-breve-historia.html
    3. Pseudônimo de Hippolyte Léon Denizard Rivail (Lyon, França, 3 de outubro de 1804 — Paris, 31 de
      março de 1869), educador, autor e tradutor francês que se notabilizou como o codificador do Espiritismo.
    4. O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap XIX, Nr 7.

     

    por Décio Luís Schons Cruzado 5418

     

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