Pérolas e Porcos


Danilo Carvalho Villela

Cz 4.300

Após as bem-aventuranças, no Sermão da Montanha, encontramos diversas orientações de Jesus sobre temas específicos, entre elas a que recomenda: "... não atireis pérolas aos porcos..." (Mateus, 7:6).

O ensinamento se refere claramente à divulgação da Boa Nova e a comparação utilizada contém expressões fortes pois pérolas são objetos valiosos, empregados em joalheria e simbolizam os ensinos do Mestre. Por outro lado, embora a moderna criação de suínos se processe em higiene, assim não ocorria até época relativamente recente, vivendo os porcos em meio a lama e detritos pelo que se tornaram quase sempre sinônimos de imundície. A diretriz, assim, é incisiva: não se deveria despender tempo, esforços e recursos oferecendo a mensagem cristã a pessoas ainda incapazes de entendê-la por se mostrarem plenamente satisfeitas com uma percepção exclusivamente material da existência, sendo desaconselhável a tentativa de forçar convicções.

Jesus não deixou de oferecer a seus seguidores indicações sobre como realizar essa tarefa recomendando-lhes: "Nas cidades ou aldeias que entrardes, informai-vos se há alguém ali digno de vos receber, ficai ali até a vossa partida." (Mateus, 10:11) e também "brilhe a vossa luz" (Mateus, 5:16). Ou seja: que houvesse uma base material simples para a atividade de divulgação, que deveria realizar-se, sempre, associada à exemplificação pessoal. E foi dentro dessa orientação que a proposta evangélica propagou-se com a rapidez espantosa para as condições da época, de tal sorte que em poucas décadas se havia espalhado pelo vasto império romano, sobretudo ao redor do mediterrâneo, embora enfrentasse obstáculos e perseguições. Sabe-se, igualmente, que apesar dessa difusão ampla, nada havia que lembrasse qualquer forma de massificação, ocorrendo, pelo contrário, uma opção claramente individual, consciente, dado o tipo de informação oferecida – que enfatizava o comprometimento pessoal com as novas idéias – e até as dificuldades que a adesão à doutrina de Jesus poderia acarretar.

Posteriormente – cerca de três séculos – no entanto, a preocupação em aumentar o número de adeptos levou à adoção de mudanças. Todos sabem que porcos não se interessam por pérolas mas que existem coisas que eles apreciam e assim, com o objetivo de ampliar o rebanho – embora com distanciamento do modelo seguido no período inicial – começaram a ser introduzidas alterações na proposta cristã original de sorte que, dentro de algum tempo, dispunha-se de algo capaz de atrair muita gente mas onde não mais se encontravam as pérolas do ensinamento evangélico. Entre essas inovações podemos alinhar o uso de imagens, altares, trajes e rituais diversos, além de uma administração fortemente centralizada e hierarquizada, devendo lembrar-se, ainda, que, assim como o paganismo dispunha de divindades especializadas para a proteção das lavouras, das artes, do comércio, etc, também os cristãos passaram a contar com santos que faziam achar objetos perdidos, promoviam casamentos, auxiliavam na solução de "causas impossíveis".... Os templos se multiplicaram, alguns deles suntuosos, para homenagear o filho do carpinteiro que "não tinha uma pedra onde reclinar a cabeça", caminhando-se, então, para uma religiosidade apenas exterior, na qual as diretrizes da Boa Nova, que são eminentemente comportamentais, passaram a ser desconhecidas da grande maioria, situação que persiste em nossos dias.

Surgindo em pleno século XIX, a Doutrina Espírita satisfaz as exigências modernas de racionalidade e objetividade procurando, igualmente, restabelecer hábitos e posturas do período inicial do cristianismo. Sua divulgação, por isso, se realiza em bases de simplicidade e autenticidade, enfatizando-se a importância do conhecimento para a aquisição da verdadeira fé, que é inabalável porque pode encarar de frente a razão em todas as épocas da humanidade e, por ser assim, capaz de influenciar a conduta de quem a adquire.

Essas as diretrizes essenciais adotadas por Allan Kardec para a propagação da mensagem espírita. Buscava-se ser interessante para atingir e sensibilizar o maior número sem, contudo, usar de quaisquer artifícios – omissões ou acréscimos – capazes de desfigurá-la, dirigindo-se sempre à razão e destacando-se a presença do bem em nossas vidas.

As pérolas de inestimável valor do ensinamento cristão acham-se disponíveis em nossa literatura e em nossas casas de oração, estudo e aplicação no bem. Que saibamos aproveitá-las enriquecendo assim as nossas vidas.

O autor é Cel Com R/1, Diretor da CME e Presidente do Núcleo do Colégio Militar do Rio de Janeiro.

 

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