
Contribuição Para o Estudo da Reencarnação
Célio de Souza Brandão
Cz 6733
Estava ouvindo, com muita alegria, uma exposição doutrinária na qual o expositor com grande verve contou uma parábola que já conhecia, mas que pelas qualidades do narrador prendeu-me a atenção.
Tentarei reproduzi-la:
Havia uma ilha deserta, inóspita em sua natureza e longe das rotas de navegação, que abrigava três náufragos: um francês, um italiano e o terceiro que poderia ser de qualquer nacionalidade. Pelo tempo decorrido estavam deses-perançados de ser recolhidos quando depararam com uma garrafa fechada que as ondas estavam trazendo à praia da ilha. Ao ser aberta um gênio surgiu subitamente numa nuvem de fumaça. Após as apresentações convencionais o gênio disse aos três que ali estava para atender a um pedido que eles fizessem, mas somente teriam direito a um único pedido.
Dirigindo-se ao francês perguntou-lhe o que gostaria que lhe fizesse. O francês não hesitou e pediu uma mansão na Côte d’Azur, com piscinas e quadras de tênis. Foi de pronto atendido, desaparecendo numa nuvem de fumaça.
A seguir, o italiano fez a sua petição. Queria um chalé em Cortina d’Ampezzo com muitas facilidades, incluindo uma pista de obstáculos para praticar seu esporte favorito, o hipismo. Foi prontamente atendido, desaparecendo numa fumaça rósea.
Ao terceiro, de nacionalidade desconhecida, foi feita a mesma pergunta. Foi peremptório na resposta: – Quero meus companheiros de volta, sendo prontamente atendido.
O que esta parábola tem a ver com a reencarnação?
Que ensinamentos pode-se extrair à luz da Doutrina Espírita?
A reencarnação como sabemos é uma Lei Natural.
Nós, espíritos encarnados, após um período de existência na carne, que varia de criatura para criatura, perderemos fatalmente o corpo físico que morrendo tornará à natureza.
O espírito desprende-se e vai para o Mundo Espiritual que a Física Moderna denomina espaço-tempo negativo, que interpenetra-se no mundo material.
Permanecerá o espírito neste plano por períodos muito variáveis. Professor Hernani Guimarães Andrade em seus estudos chegou a uma média de duzentos e cinqüenta anos.
O número de reencarnações também varia, mas sabemos que são muito numerosas.
Sabendo que a evolução espiritual depende do aproveitamento das reencarnações, pode-se dizer que quanto menor o número de reencarnações maior o aproveitamento das mesmas.
Chega o ponto em que o espírito não mais ne-cessitará reen-carnar.
A primeira ilação a ser tirada do que foi dito acima é: todos teremos que reencarnar para evoluir pois é no corpo físico que poremos à prova os progressos feitos nas reencarnações precedentes e nos períodos passados no mundo maior.
A segunda ilação a tirarmos é que a reencarnação é a maior dádiva de Deus.
Como dar-se-ia o processo reencarnatório?
Através da obra do benfeitor André Luiz, psicografada pelo saudoso Francisco Cândido Xavier, "Missionários da Luz", ficamos sabedores do processo reencar-natório de Sigismundo mas sabemos pelos livros que tivemos a oportunidade de compulsar e estudar, que outros tipos de reencarnação ocorrem como as compulsórias e as livres.
As compulsórias, como o nome indica, atingem os espíritos que não adquiriram ainda condições intelecto-morais para sequer participar do planejamento reencarnatório.
As livres, nas quais o espírito reencarnante já adquiriu condições para direcioná-la junto aos men-tores espirituais. Está destinada a espíritos dotados do discernimento necessário à participação nesse processo.
As reencarnações, mesmo as compulsórias, não ocorrem a esmo pois não escapam ao planejamento reencarnatório.
Podemos dizer também que não há reencarnação fadada ao fracasso por mais difícil que possa parecer.
Algumas falsas idéias são muito ouvidas.
Por exemplo: o rico vira mendigo e vice-versa, o patrão seria subalterno e o nobre um lacaio.
Pura fantasia, pois Deus quer o progresso da humanidade e não a estagnação.
Tudo dependerá do uso que se faz da riqueza, da caridade praticada, da maneira de encarar o sofrimento, a prática da lei de amor enquanto encarnado.
Precisamos evitar afirmações como fulano é deficiente físico porque se trata da lei de causa e efeito.
Puro engano pois algumas vezes são provas solicitadas ao Plano Superior para acelerar o crescimento espiritual.
Outro engano é colocarmo-nos em posição de superioridade diante de irmãos que passam por dificuldades sócio-econômicas. É preciso saber que alguns são espíritos preparados para passar por provas que nem todos suportariam.
É imperioso portanto que respeitemos todos os nossos irmãos estejam eles em que condições estiverem o que aliás é o que Jesus nos ensina.
Voltemos a nossa historinha.
Quem conhecia mais da vida?
Claro que o terceiro pois não estamos num mundo de provas e expiações para gozar férias em lugares paradisíacos com muitas facilidades, que não nos fazem evoluir espiritualmente.
É passando por provas enquanto reencarnados que desenvolvemos a inteligência e fortalecemos o espírito.
Podemos concluir nossas reflexões afirmando que uma vida boa é caracterizada por provas bem resolvidas, em consonância com os ensinamentos de Jesus contidos nos Evangelhos, e calcada no trabalho construtivo na direção do bem.
A autor é livre docente e Professor Titular Aposentado de Ortopedia de U.F.R.J.